SINOPSE | SYNOPSIS

 

O que significa ser uma mulher africana, ou uma mulher afrodescendente na contemporaneidade? Partindo deste questionamento, o documentário “O Navio e o Mar” propõe um ensaio cinematográfico que retrata viagens cruzadas, tecidas por diários entre “duas Áfricas”. Everlane parte para Moçambique procurando as raízes de uma matriz cultural berço da afrodescendência no Brasil. Lara viaja para o Brasil procurando na cultura afrodescendente de Everlane traços culturais apagados em séculos de colonização e turbulentas décadas de independência. Vêem-se em Lisboa, ex-metrópole colonial, onde cruzam as suas experiências, questionando a versão hegemônica da História.

 

What does it mean to be an African woman, or an Afro-descendant woman in contemporary times? Based on this question, the documentary “The Ship and The Sea” proposes a cinematic rehearsal that portrays crossed trips, through diaries between “two Africas”. Everlane leaves for Mozambique looking for the roots of a cultural matrix that is the birthplace of Afrodescent in Brazil. Lara travels to Brazil searching Everlane's Afro-descendant culture for cultural traces erased in centuries of colonization and turbulent decades of independence. They see each other in Lisbon, a former colonial metropolis, where they share their experiences, questioning the hegemonic version of history.

PERSONAGENS | MAIN CHARACTERS

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LARA SOUSA

Lara (29) é uma cineasta moçambicana, nascida em Maputo, Moçambique. Faz algum tempo que Lara se sente distanciada do seu país, apesar de viver nele. Decidiu afirmar-se negra numa sociedade que a considera mulata. Assim, para ela, ser moçambicana nos dias de hoje significa ser uma imagem esculpida por outros, perdida entre o antigo e o novo continente. Decide fazer uma viagem à Bahia de todos os Santos, lugar de Everlane, sua grande amiga. Decide que quer ir filmar esse território e o seu povo negro, acreditando que nessa Bahia encontrará algo que lhe fale diretamente ao passado que não conhece e que falará diretamente do que se perdeu na história do seu país. Acredita que na Bahia encontrará as respostas que no seu país não sabe onde procurar, respostas essenciais para traçar um novo futuro e uma nova imagem que fale dela, e não a partir do olhar dos outros que a esculpiram.

Lara (29) is a Mozambican filmmaker, born in Maputo, Mozambique. Lara feels distanced from her  country, despite living in it. She decided to affirm herself to be black in a society that considers her a mulatto. For her, being Mozambican today means being an image sculpted by others, lost between the old and the new continent. She decides to travel to Bahia, Everlane’s home state (her great friend), to film this territory and its black people, believing that there she will find something that speaks directly to her unknown past; by contrasting what was, culturally lost, in the history of her country. Lara assumes that in Bahia she will find unanswered questions about her country. These clues will help her to construct a new future and image of her, moving away from the eyes of others who sculpted her. 

EVERLANE MORAES

Everlane (32) é uma cineasta brasileira, nascida na Bahia, Brasil. Sente-se filha de uma África que não conhece. Sabe que a sua história não começa em nenhum lugar do seu continente. O lugar onde nasceu é a região do mundo com a maior população negra fora de África (80%). A sua aparência física faz com que seja impossível negar a sua verdadeira origem: é uma brasileira descendente de africanos. Ao mesmo tempo que sofre socialmente o peso da sua origem africana num país racista. Decide fazer uma viagem à África da Lara, com a intenção de procurar pedaços do Brasil que estão para além do horizonte, nas terras dos seus antepassados. Quer filmar gente negra num lugar onde todos sejam negros. Idealiza que na África vai encontrar um passado que no seu país não é valorizado. Sente que precisa trazer algo de África para o Brasil, para voltar mais confiante da mulher negra que é.

Everlane (32) is a Brazilian filmmaker, born in Bahia, Brazil. She feels like the daughter of an Africa she doesn’t know. She knows that her story does not begin anywhere on her continent. Bahia, where she was born, is home to the largest black population outside Africa (80%). Her physical appearance makes it impossible to deny her origin: she is a Brazilian woman of African descent. At the same time, Everlane suffers the social weight of her African heritage in a racist country. She chooses to travel to Lara’s Africa (Mozambique), to look for pieces of a Brazil that are beyond the horizon, in the lands of her ancestors. She wants to film black people in a place where everyone is black. Everlane Idealizes that in this travel she will find a past that in her country is not appreciated. She needs to bring something from Africa to Brazil, to return more confident of the black woman she is. 

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CARTA DE INTENÇÃO | INTENTION

 

Moramos três anos em Cuba, enquanto estudávamos cinema. No início dessa experiência, percebemos um conflito latente entre nós. A cada momento, fomos confrontadas com todos os estereótipos físicos de representação de nossos países ou continentes. A “mais” brasileira era a moçambicana, a “mais” africana era a brasileira. A moçambicana tinha a pele mais clara e os cabelos mais ondulados, parecia mais “uma brasileira”; a brasileira tinha pele negra escura e dreads no cabelo, mais parecia uma “africana”. Esta violenta confusão sobre os lugares a que pertencem os nossos corpos e identidades, fez-nos compreender que os nossos corpos negros incorporavam neles um complexo sistema de estereótipos, imaginários e exotismos. O que poderia ter sido uma rejeição inicial, nos desafiou a construir uma narrativa única, de compreensão dos pontos de conexão e desconexão entre nossas identidades “negra / afro”, ao mesmo tempo em que tentamos começar a construir uma ponte de entendimento entre dois universos aparentemente semelhantes e tão diferentes ao mesmo tempo: a diáspora africana e a África. Neste ensaio cinematográfico, queremos propor a desconstrução do lugar-comum mais violento:  a existência de uma única África, à qual todos pertencemos sem subjetividade ou identidade particular. Por meio de crônicas e relatos feitos em dois territórios distintos, propomos uma troca do lugar da fala, olhando as identidades umas das outras, buscando compreender como temas como racismo, pobreza, exclusão social e econômica afetam a construção identitária de si.

 

Ao mesmo tempo, este filme nasce da imensa necessidade que ambas temos de ver viajantes negras retratadas nas telas de cinema. É aí que nosso filme começa quando, juntas, entendemos que em nosso imaginário as únicas mulheres negras que viajaram eram escravizadas ou envolvidas em migrações forçadas. O Navio e o Mar começavam assim, duas histórias cruzadas que se encontravam em um não-lugar, sem espaço nas páginas da História. Um retrato conjunto de nós duas, mulheres à procura do seu patrimônio cultural, que procuram urgentemente encontrar esta ponte entre mundos, entre memórias individuais e coletivas. Sabemos que o cinema é esse não-lugar, onde podemos escrever essa outra história.

We lived in Cuba for three years, while studying cinema. At the beginning of this experience, we noticed a latent conflict between us. At every moment, we were confronted with all the physical stereotypes of representation of our countries or continents. The “most” Brazilian was the Mozambican, the “most” African was Brazilian. The Mozambican had lighter skin and more wavy hair, she looked more like “a Brazilian”; the Brazilian had dark black skin and dreads in her hair, she looked more like “an African”. This violent confusion about the places where our bodies and identities belong, made us understand that our black bodies incorporated in them a complex system of stereotypes, imaginary and exoticisms. What could have been an initial rejection, challenged us to build a unique narrative, of understanding the points and connection and disconnection between our “black/afro” identities, at the same time that we tried to start building a bridge of understanding between two apparently similar universes and so different at the same time: the African diaspora and Africa. In this cinematographic essay, we want to propose the deconstruction of the most violent commonplace: the existence of a single Africa, to which we all belong without subjectivity or particular identity. Through chronicles and reports made in two different territories, we propose an exchange of the place of speech, looking at each other’s identities, trying to understand how themes such as racism, poverty, social and economic exclusion affect the identity construction of the self.

At the same time, this film is born from the immense need we both have of seeing black female travelers, depicted on movie screens. That is where our film begins when together we understand that in our imaginary the only black women that traveled were slaves or involved in forced migrations. The Ship and Sea began thus, two crossed stories that met in a non-place, without space in

the pages of History. A joint portrait of us, two women seeking their cultural heritage, who urgently seek to find this bridge between worlds, between individual and collective memories. We know that cinema is this non-place, where we can write this other story.

Produtoras | Production Company Portatil, La Selva. Ecosistema Creatiu, Kalunga, Laranjeiras Filmes & Kintop Diretoras | Directos Everlane Moraes & Lara Sousa Produtores/as | Producer Emerson Dindo, Matheus Mello, Lara Sousa, Joelma Gonzaga & Elsa Sertório Diretor Produção | Line Producer Matheus Mello, Emerson Dindo & Elsa Sertório Roteirista | Screenplay Leandro Santos Rodrigues Editor | Editor Juliano Castro 

Diretor de Fotografia | Director of Photography Flávio Rebouças Editor de Som | Sound Designer Vitor Coroa

FICHA TÉCNICA

O Navio e o Mar | The Ship And The Sea

Duração | Length 75 min

Formato | Shoot Format 2K

Cenas Originais | Original Footage 67 min

Imagens de Arquivo | Archival Footage 5 min

Animação | Graphics/Animation 3 min

(Opening title, end credits)

Idioma | Language Português | Portuguese

Versões Internacionais | Int’l versions Espanhol, Inglês e Francês

Estreia | Premiere 2022 (previsão)

Locações | Locations Cachoeira, Salvador, São Paulo (Brasil); Maputo, Inhambane (Moçambique); Lisboa (Portugal)

HISTÓRICO | HISTORIC

 

PRÊMIOS | AWARDS

Docubox East African Fund - 2019 | Quênia

William Greaves Fund - 2020 | Estados Unidos

Prêmio Jorge Portugal - 2020 | Brasil

LABORATÓRIOS | LABS

Miradasdoc - 2019 - Tenerife | Espanha

Filma Afro - 2019 - Cartagena | Colômbia

Doc Lab - 2019 - São Paulo | Brasil

Doc Impacto - 2019 - São Paulo | Brasil

Berlinale Talents - 2020 - Berlin | Alemanha

IDFAcademy - 2020 - Amsterdam | Brasil​

MERCADOS | MARKET

DocSP - 2019 - São Paulo | Brasil

Durban Film Mart - 2020 - Durban | África do Sul

Nordeste Lab - 2020 - Salvador | Brasil

Guangzhou International Documentary Film Festival - 2020 - Guangzhou | China